A Meta (Tom Coelho)

“A fórmula da minha
felicidade: 

um sim, um não, uma linha reta, um objetivo.”

(Friedrich Nietzsche)

Você decide ir ao cinema. Sai
de casa e quando percebe, imerso em seus pensamentos, está fazendo o caminho
convencional para ir ao trabalho – e que coincidentemente é diametralmente
oposto. Depois de enfrentar um belo trânsito, acerta o passo e chega ao
shopping. Vasculha os três pisos para obter uma vaga no estacionamento. Logo
mais, encontra uma agradável fila para comprar os ingressos. Na boca do caixa
descobre que a sessão está esgotada. Outra, só duas horas e quinze minutos
depois.

Impossível? Improvável? Com
você não? Pense bem antes de responder. Se você ainda não passou pelo ciclo
completo descrito acima, uma boa parte dele já lhe visitou num final de semana
destes. O mal é o mesmo que afeta profissionais e empresas no mundo
corporativo: a ausência de metas definidas.

Cinco
Passos para uma Meta

Vamos partir de um
pressuposto. Você sabe o que quer, para onde deseja ir. Se está em uma empresa
que não lhe agrada, buscará outra. Se está disponível, sabe qual o perfil da
vaga que lhe interessa. Se está satisfeito em sua posição atual, almeja
alcançar um cargo mais elevado.

Uma meta, qualquer que seja
ela, só pode ser assim conceituada quando traçada segundo cinco variáveis. A
primeira delas é a especificidade. Seu objetivo deve ser muito bem definido.
Assim, não adianta declamar aos quatro cantos do mundo “Quero trabalhar na
multinacional ABC Ltda.”. Desculpe-me a franqueza, mas acho que você não será
contratado a menos que pense “Vou trabalhar como Gerente Comercial, na Divisão
Alfa, da companhia ABC Ltda., atuando na coordenação e desenvolvimento de
equipes de vendas para a Região Sul”. Quanto mais específica for a definição de
seu propósito, mais direcionado estará seu caminho.

A segunda variável é a mensurabilidade.
Sua meta deve ser quantificável, tornando-se objetiva, palpável. Em nosso
exemplo anterior, você teria que definir, por exemplo, a faixa de remuneração
desejada. Uma outra situação bem ilustrativa desta variável é a aquisição de
bens materiais. “Pretendo comprar um carro”, é um desejo. “Vou comprar um
veículo da marca XYZ, modelo Beta, com motor 2.0, dotado dos seguintes
opcionais (relacioná-los) com valor estimado em R$30.000,00”, é uma quase-meta.

A próxima variável é a exeqüibilidade.
Uma meta tem que ser alcançável, possível, viável. Voltando ao exemplo inicial,
o objetivo de integrar o quadro da ABC Ltda. como Gerente Comercial não será
alcançável se você tiver uma formação acadêmica deficiente, experiência
profissional incompatível com o perfil do cargo e dificuldades de
relacionamento interpessoal.

Chegamos à relevância.
A meta tem que ser importante, significativa, desafiadora. Você decide como
meta anual elevar o faturamento de seu departamento em 5% acima da inflação.
Porém, seu mercado de atuação está aquecido e este foi o índice definido – e
atingido – nos últimos dois anos. Logo, é preciso ousadia, coragem, para
determinar um percentual superior a este, capaz de motivar a equipe em busca do
resultado. Lembre-se de que o bom não é bom onde o ótimo é esperado.

Finalmente, o aspecto mais
negligenciado: o tempo. Muitas metas são bem definidas, mensuráveis, possíveis e
importantes, mas não estão definidas num horizonte de tempo. Aquela
oportunidade de negócio tem que ser concretizada até uma data limite. Aquela
reunião tem que ocorrer entre 14h00 e 16h00. Aquele filme no cinema tem início
às 21h30 e sairá de cartaz na sexta-feira próxima. Procrastinar, nome feio dado
à mania de adiar compromissos cabe como uma luva aqui e confere um golpe mortal
a qualquer meta proposta.

Metas,
Realização e Resultados

No mundo das corporações as
coisas nem sempre funcionam assim. Observamos o reinado do “auto-engano”. Metas
são estabelecidas para justificar investimentos, agradar acionistas. São
fixados objetivos com base em expectativas irreais, prevendo crescimento da
ordem de dois dígitos independentemente de incertezas políticas e econômicas.
Poderiam até ser alcançáveis dentro de um espaço de tempo adequadamente
delimitado. Mas como não se pretende mexer nas variáveis tempo e
exeqüibilidade, alteram-se as variáveis mensurabilidade (daí os balanços
maquiados, ou melhor, a “contabilidade criativa”) e relevância (daí qualquer
meio ser justificável, inclusive rasgar a Carta de Valores, praticar downsizing
a qualquer custo, desviar o foco do negócio, promover fusões e joint
ventures
desprovidas de fundamentação).

As
pessoas buscam realização. Mais do que um ato, um estado de espírito. Mais
importante do que o fato concretizado, a satisfação de tê-lo feito.

As
empresas, por sua vez, buscam resultados. Mais do que a conclusão, o fim de
algo em si mesmo. Estes resultados podem ser representados por mais lucro, mais
espaço no mercado, mais clientes. Ou seja, invariavelmente deve significar
“mais”, embora não raro acabe por tornar-se “menos”.

Decorre
deste estado de coisas que acabamos por ter um grande teatro onde planejamentos
são criados, estratégias inventadas, profissionais desmotivados, valores
corrompidos. A verdade é mascarada, a integridade é volatilizada.

Há,
infelizmente, uma distância quase incompatível entre metas corporativas e metas
pessoais. Salvo exceções, conciliá-las pode não passar de retórica barata. O
executivo pretende vigiar sua saúde, assistir à sua família e obter realizações
palpáveis em seu ambiente de trabalho. A empresa diz que o apóia, mas exige-lhe
pesada carga de trabalho, impõe-lhe a necessidade de resultados expressivos,
cultiva-lhe o stress e a insegurança.


A Meta deve ser Você

Particularmente,
não compactuo desta ditadura. Resultados não são tudo, assim como não é o
cliente quem manda na empresa. Resultados devem ser buscados com persistência,
assim como clientes devem sem atendidos com maestria. Mas o fim de tudo deve
ser o sentimento de realização, a satisfação de dever cumprido. Ainda que a
contabilidade diga que você trocou seis por meia dúzia…

Por isso, estabeleça e
mantenha o foco. Parafraseando os Irmãos Pedro Lopes, “várias flechas não
garantem o acerto do alvo, e vários alvos confundem o arqueiro”. Esteja
preparado para os tombos – um obstáculo é apenas uma das etapas do seu plano.
Use a vaidade e o dinheiro como bons estímulos, mas jamais como objetivos.
Redija suas metas de forma nítida, cuidando para que elas sejam específicas,
mensuráveis, alcançáveis, relevantes e temporais. Dê-lhes todo seu esforço e
imaginação.

E, finalmente, lembrando
Richard Carlson, “pense no que você tem, em vez do que gostaria de ter. A
felicidade não pode ser atingida quando estamos o tempo todo desejando novas
metas. Quando você focaliza não o que se deseja, mas o que tem, termina obtendo
mais do que gostaria”.

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